A Siri ficou para trás. Mas o problema da Apple Intelligence é maior do que parece
A Apple não chegou tarde à inteligência artificial. Ela chegou tarde àquilo que as pessoas passaram a esperar de uma inteligência artificial.
Theus
Editor-chefe

Eu vou começar fazendo uma confissão: eu gosto bastante dos produtos da Apple.
E isso talvez torne essa discussão até mais interessante, porque eu não preciso fingir que a empresa é perfeita para gostar dela.
A Apple faz hardware muito bom, tem um ecossistema extremamente bem integrado e, quando acerta, consegue transformar uma tecnologia complicada em algo que simplesmente funciona.
Mas aí existe a Siri.
E, meu amigo... a Siri parece ter parado no tempo.
Você pode perguntar a previsão do tempo, criar um alarme, colocar um timer, fazer uma ligação ou perguntar alguma coisa relativamente simples. Mas basta você sair um pouquinho desse roteiro para a assistente parecer que acabou de acordar de um cochilo de quinze anos.
E foi justamente aí que a Apple Intelligence entrou em cena.
A Apple Intelligence prometeu mudar a Siri
Em 2024, a Apple apresentou a Apple Intelligence como uma grande mudança na maneira como o iPhone lidaria com inteligência artificial.
A promessa não era simplesmente colocar um chatbot dentro do iPhone.
A ideia era muito mais interessante.
A Siri deveria entender melhor o que você fala, lembrar do contexto de uma conversa, entender o que está aparecendo na tela, acessar informações pessoais e realizar ações dentro de aplicativos.
Imagine receber uma mensagem com um endereço e simplesmente dizer:
"Adiciona esse endereço ao contato dele."
Ou receber informações sobre uma viagem e perguntar:
"Qual é o horário do voo da minha mãe?"
A Siri deveria conseguir procurar essas informações no seu próprio iPhone e agir a partir delas.
E isso é muito diferente de simplesmente perguntar ao ChatGPT "qual é a capital da França".
A Apple estava tentando transformar a Siri de uma assistente que responde comandos em uma assistente que entende o que está acontecendo.
A promessa era enorme.
O problema é que a promessa chegou antes do produto.
E aí a Apple fez uma coisa que não combina muito com ela
A Apple começou a divulgar essas funções como parte da experiência do iPhone 16 e da Apple Intelligence.
Só que algumas das funções mais interessantes não estavam prontas.
Em março de 2025, a empresa confirmou que os recursos de contexto pessoal e ações dentro e entre aplicativos demorariam mais do que o previsto. A Reuters informou que essas melhorias, inicialmente esperadas para 2025, foram adiadas.
E não estamos falando de uma função secundária.
Era justamente uma das partes mais interessantes da nova Siri.
A própria Apple havia apresentado exemplos em que a assistente poderia entender mensagens, e-mails, fotos, calendário e conteúdo exibido na tela para realizar ações.
Então aconteceu uma situação meio estranha.
A Apple tinha um iPhone novo.
Tinha um novo sistema de inteligência artificial.
Tinha uma apresentação bonita.
Tinha comerciais.
Tinha uma Siri que, na teoria, seria muito mais inteligente.
Mas parte daquilo que tornava a promessa realmente interessante ainda estava sendo construída.
E isso, sinceramente, é um problema.
"Mas a Apple não tem dinheiro?"
Essa é provavelmente a primeira coisa que vem à cabeça.
A Apple é uma das empresas mais valiosas do planeta. Tem dinheiro, engenheiros, chips próprios, data centers, bilhões de dispositivos espalhados pelo mundo e controle praticamente completo sobre o hardware e o sistema operacional.
Então por que diabos fazer uma Siri realmente inteligente parece tão difícil?
Porque existe uma diferença gigantesca entre fazer um chatbot e fazer uma inteligência artificial que possa mexer na sua vida digital.
Um chatbot pode responder:
"Qual restaurante italiano é bom em São Paulo?"
Uma Siri realmente integrada precisaria fazer algo muito mais complicado.
Ela poderia precisar descobrir sua localização, entender suas preferências, consultar informações atualizadas, verificar seus compromissos, interpretar uma mensagem, acessar um aplicativo e talvez ainda executar alguma ação.
E tudo isso precisa acontecer sem mandar sua vida inteira para algum servidor aleatório.
A Apple ainda precisa conciliar inteligência artificial com uma das maiores bandeiras da empresa: privacidade.
Para tarefas mais pesadas, a Apple criou o Private Cloud Compute, que usa servidores com Apple Silicon para processar solicitações sem, segundo a empresa, armazenar ou disponibilizar os dados ao próprio fabricante.
Ou seja: não é simplesmente "pega um modelo de IA, enfia na Siri e acabou".
Mas também não dá para usar isso como desculpa para sempre.
O ChatGPT virou o "amigo inteligente" da Siri
Enquanto a Apple construía sua própria inteligência, ela também fez uma parceria com a OpenAI.
E aqui existe uma nuance importante.
A Apple não simplesmente desistiu da Siri e entregou o controle para o ChatGPT.
Quando uma solicitação é adequada para isso, a Siri pode pedir autorização para usar o ChatGPT e apresentar a resposta diretamente. A integração também pode analisar imagens e documentos.
Na prática, é como se a Siri dissesse:
"Eu sei fazer algumas coisas. Essa aqui eu não sei tão bem. Quer que eu pergunte para aquele cara ali?"
E, sinceramente?
Eu não acho isso necessariamente ruim.
Se o ChatGPT é melhor para responder uma pergunta, ótimo. Eu quero uma resposta boa, não quero que a Apple fique tentando provar que consegue fazer tudo sozinha.
O problema começa quando você olha para o contexto.
A Apple apresentou a Apple Intelligence como uma nova era de inteligência pessoal no iPhone. Então é perfeitamente razoável esperar que a Siri consiga fazer mais do que perguntar se você quer usar outra inteligência artificial.
Porque se eu perguntar:
"Lasanha ou escondidinho para fazer hoje?"
e a Siri responder:
"Você quer que eu use o ChatGPT para isso?"
...bom, talvez eu tenha encontrado uma tecnologia revolucionária: uma assistente que terceiriza a decisão do jantar.
O problema nunca foi simplesmente "a Apple não sabe fazer IA"
Essa é uma crítica que eu acho simplista demais.
A Apple trabalha com machine learning há muitos anos. Seus dispositivos têm Neural Engine, processamento local, reconhecimento de voz, visão computacional e uma infraestrutura própria para executar modelos de inteligência artificial.
Então não faz muito sentido dizer que a Apple "descobriu a IA agora".
O que aconteceu foi outra coisa.
A inteligência artificial mudou de papel.
Durante muito tempo, era perfeitamente aceitável uma assistente virtual entender comandos simples.
"Siri, coloque um alarme para sete horas."
"Qual é a previsão do tempo?"
"Ligue para minha mãe."
Só que o ChatGPT mudou a expectativa das pessoas.
De repente, uma inteligência artificial podia conversar.
Podia explicar.
Podia escrever.
Podia resumir.
Podia comparar coisas.
Podia entender documentos.
Podia discutir uma ideia.
E, principalmente, podia receber uma pergunta que não tivesse sido previamente transformada em um comando específico.
A régua subiu.
E a Siri continuou tentando pular a mesma altura de antes.
A Apple demorou para perceber ou demorou para executar?
Essa é uma diferença importante.
Eu não acho correto dizer que a Apple simplesmente ignorou inteligência artificial durante anos.
Mas acho completamente justo dizer que ela demorou para transformar toda essa capacidade em uma experiência de IA generativa que competisse com aquilo que o público passou a conhecer.
E isso custou caro em outro sentido: percepção.
Enquanto ChatGPT, Gemini e outras ferramentas começaram a fazer as pessoas pensar em inteligência artificial como algo realmente útil, a Siri continuava sendo lembrada principalmente por coisas como timer, clima e "desculpe, não entendi".
A Apple perdeu protagonismo na conversa.
E isso é especialmente curioso porque ela tem uma vantagem que empresas como OpenAI e Anthropic não possuem.
A Apple controla o aparelho.
Ela controla o sistema.
Controla boa parte das APIs.
Controla o processador.
Controla o sistema de permissões.
Controla a interface.
E tem centenas de milhões de pessoas usando seus dispositivos todos os dias.
Ela não precisa necessariamente criar o melhor chatbot do planeta.
Ela precisa criar a inteligência artificial mais útil dentro do aparelho que você já está segurando.
E isso é muito mais interessante.
Talvez a Apple nem precise vencer o ChatGPT
Imagine duas inteligências artificiais.
A primeira tem o modelo mais inteligente do mundo.
Mas para fazer alguma coisa você precisa abrir um aplicativo, copiar uma informação, colar em outro lugar, explicar o contexto e depois executar tudo manualmente.
A segunda talvez tenha um modelo um pouco inferior.
Mas você diz:
"Procura naquela conversa com o João o horário do voo e coloca no meu calendário."
E ela faz.
Nesse cenário, eu provavelmente escolheria a segunda.
Porque inteligência não é apenas saber responder perguntas difíceis.
É conseguir fazer alguma coisa útil com aquilo que você sabe.
E é justamente nesse ponto que a Apple pode ter uma carta muito forte.
A empresa não precisa necessariamente transformar a Siri em "um ChatGPT da Apple".
Ela pode transformar a Siri em uma camada de inteligência espalhada pelo sistema.
Uma IA que sabe onde estão suas informações, entende o que está na tela, conversa com seus aplicativos e consegue executar ações.
Isso seria muito mais difícil de fazer bem.
Mas também seria muito mais difícil de substituir.
E agora a Apple finalmente está tentando fazer isso
Depois de todo o atraso, a história mudou novamente.
Em junho de 2026, a Apple apresentou oficialmente uma nova versão chamada Siri AI.
Segundo a empresa, ela foi construída sobre uma nova arquitetura e traz justamente aquilo que estava faltando: contexto pessoal, conhecimento amplo, reconhecimento do conteúdo da tela e capacidade de realizar ações de maneira mais natural entre aplicativos.
Ou seja, a Apple finalmente está tentando entregar a Siri que havia prometido.
Só existe um pequeno detalhe.
Ela ainda está chegando.
A Apple diz que a Siri AI estará disponível em beta para usuários ainda em 2026.
E é por isso que eu não compraria a narrativa de que "a Apple perdeu a corrida da IA".
Ainda não dá para afirmar isso.
Ela perdeu tempo? Sim.
Perdeu espaço na conversa sobre inteligência artificial? Com certeza.
Fez promessas antes de conseguir entregar tudo? Fez.
Mas dizer que perdeu definitivamente seria confundir atraso com derrota.
A Apple ainda tem uma das posições mais privilegiadas possíveis para transformar IA em produto.
Agora falta provar que consegue fazer isso.
O verdadeiro teste da Siri
No fim das contas, eu não quero que a Siri ganhe um campeonato de benchmark.
Não estou particularmente interessado em saber se o modelo dela tem mais ou menos parâmetros que o concorrente.
Eu quero que ela seja útil.
Quero poder falar normalmente.
Quero que ela entenda contexto.
Quero que ela consiga olhar para a tela e entender o que estou fazendo.
Quero que ela consiga encontrar uma informação que está perdida em uma conversa antiga.
Quero que ela consiga realizar uma tarefa sem eu precisar explicar cada passo como se estivesse ensinando um estagiário.
E principalmente: quero parar de sentir que estou conversando com uma assistente que nasceu em 2011 e só colocou uma roupa nova em 2024.
A Apple tem hardware.
Tem software.
Tem dinheiro.
Tem usuários.
Tem chips próprios.
Tem infraestrutura.
Tem modelos próprios.
E agora está dizendo que tem uma nova arquitetura para a Siri.
Então acabou a desculpa.
A bola está no campo da Apple.
Porque depois de anos dizendo que a Siri seria mais pessoal, mais inteligente e mais integrada, eu não quero mais uma apresentação bonita.
Quero pegar o iPhone, fazer uma pergunta normal e receber uma resposta que faça sentido.
E, se eu perguntar se faço lasanha ou escondidinho hoje, por favor, que ela pelo menos escolha um dos dois sem precisar chamar o ChatGPT.
E você, o que acha?
Você ainda usa a Siri no dia a dia? Acha que a Apple realmente está atrasada em inteligência artificial ou acredita que ela está seguindo uma estratégia diferente? E, principalmente: o que você gostaria que a Siri conseguisse fazer que hoje ela simplesmente não consegue?
Conta aí nos comentários. Quero saber se sou só eu que tenho uma relação de amor e ódio com essa mulher.
