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A Motorola já foi gigante, criou uma das linhas de celulares mais importantes do mercado e hoje até vende aparelho de quase R$ 9 mil. Então como diabos ela ganhou fama de “celular que trava”?
Theus
Editor-chefe
Se você falar “celular ruim” em uma roda de amigos, existe uma chance considerável de alguém responder “Motorola” antes mesmo de você terminar a frase.
É quase automático.
Travou? Motorola.
Abriu a câmera e demorou? Motorola.
O teclado resolveu tirar férias? Motorola.
Tem 2 GB de RAM e parece que está tentando renderizar Avatar? Motorola.
Só que existe um pequeno problema nessa história: a Motorola não é simplesmente uma fabricante de celulares ruins. Aliás, durante uma época ela fez exatamente o contrário. A empresa ajudou a popularizar smartphones baratos que realmente funcionavam bem.
Então de onde veio essa fama?
E será que ela ainda faz sentido em 2026?
Antes de tudo: a Motorola já foi MUITO maior do que você imagina
Quando pensamos em Motorola hoje, provavelmente lembramos dos Moto G, Moto E, Edge, Razr e daqueles celulares que aparecem em promoção no varejo.
Mas a Motorola já foi uma das empresas mais importantes da história da telefonia.
Antes de smartphone virar a coisa que praticamente todo mundo carrega no bolso, a Motorola já estava fazendo história. O Razr V3, por exemplo, virou um dos celulares mais icônicos da era pré-smartphone.
Só que a chegada dos smartphones mudou completamente o jogo.
A Motorola perdeu espaço, passou por dificuldades e acabou sendo adquirida pelo Google em 2012. Dois anos depois, o Google vendeu a Motorola Mobility para a Lenovo por US$ 2,91 bilhões. Na época, o próprio Google destacou que a Motorola havia conseguido reinventar sua estratégia em torno de aparelhos de bom valor, citando justamente o Moto G e o Moto X. (blog.google)
E foi justamente aí que nasceu uma das maiores histórias de sucesso da Motorola moderna.
O Moto G não era o celular ruim. Era justamente o contrário.
Em 2013, celular barato normalmente significava uma coisa: barato mesmo.
Você podia comprar um aparelho por pouco dinheiro, mas era comum encontrar experiências bastante limitadas. O Moto G apareceu tentando mudar essa lógica.
No Brasil, o primeiro Moto G chegou por R$ 649, com Snapdragon 400, 1 GB de RAM, tela HD de 4,5 polegadas e uma versão relativamente limpa do Android. Para os padrões da época, era uma combinação extremamente interessante. (Tecnoblog)
E não foi só impressão de quem comprou.
O aparelho foi reconhecido por veículos especializados como uma das melhores opções baratas do mercado. O TechCrunch, por exemplo, descreveu o Moto G como uma tentativa bem-sucedida de aproximar “barato” de “bom”. (TechCrunch)
A linha cresceu e virou um fenômeno.
Segundo dados divulgados pela própria Motorola e repercutidos pelo Tecnoblog, a família Moto G chegou a 200 milhões de unidades vendidas mundialmente em seus primeiros dez anos. No Brasil, o aparelho ganhou uma relação especialmente forte com o público. (Tecnoblog)
Então temos uma situação curiosa:
A Motorola ajudou a criar a imagem de que celular barato não precisava ser uma porcaria.
Só que, anos depois, alguns aparelhos começaram a fazer exatamente aquilo que a empresa havia ajudado a combater.
E aí chegamos ao Moto G22…
Ah, o Moto G22.
Se existisse um tribunal dos celulares, esse aqui teria bastante coisa para explicar.
O problema do G22 não é que ele fosse simplesmente um celular de entrada. Ser barato naturalmente exige compromissos. O problema é que algumas dessas escolhas de hardware fizeram pouco sentido até dentro da própria categoria.
O aparelho chegou em 2022 com Helio G37, 4 GB de RAM, 64 GB de armazenamento, tela de 90 Hz e bateria de 5.000 mAh. No papel, você olha e pensa:
“Pô, até que parece bom.”
Aí você usa.
O Canaltech considerou a escolha do processador questionável e apontou que o antigo Moto G20, equipado com Unisoc T700, apresentava desempenho superior em benchmarks. O veículo também encontrou desempenho muito ruim em jogos e classificou o desempenho geral do G22 como baixo para o preço de lançamento, que girava em torno de R$ 1.700. (Canaltech)
O Notebookcheck foi ainda mais direto: encontrou desempenho de sistema bastante medíocre, travamentos durante multitarefa e armazenamento eMMC com velocidades baixas. (Notebookcheck)
E não foi apenas benchmark de laboratório.
Poucos meses depois do lançamento, o Canaltech publicou uma matéria especificamente sobre usuários relatando travamentos em aplicativos como Facebook e Instagram. A Motorola chegou a liberar uma atualização com correções relacionadas ao problema. (Canaltech)
O Tech Advisor também testou o aparelho e encontrou uma experiência bastante lenta: o próprio processo de inicialização chegou a levar cerca de dois minutos em determinado momento, enquanto tarefas básicas apresentavam engasgos. (Tech Advisor)
Então, nesse caso, a zoeira não veio completamente do nada.
O G22 realmente teve problemas de desempenho.
E esse detalhe importa.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer “todo Motorola trava” e dizer “a Motorola lançou aparelhos que ajudaram a construir essa reputação”.
A segunda afirmação é muito mais fácil de defender.
Mas aí existe uma armadilha
Se a gente pegar um Moto G22 como prova de que “Motorola é ruim”, estaremos cometendo exatamente o erro que este blog não deveria cometer.
Porque seria como julgar a Samsung inteira pelo Galaxy Young.
Ou a Apple pelo iPhone 3G.
Ou a Volkswagen pelo Gol 1.0 de algum ano específico.
Fabricantes grandes lançam produtos excelentes, medianos e, eventualmente, verdadeiras cagadas.
A questão é descobrir se existe um padrão.
E no caso da Motorola existe um fator importante: ela passou muitos anos extremamente associada ao mercado de entrada e intermediário.
Isso parece uma vantagem, mas também é uma armadilha.
Quando uma empresa vende principalmente aparelhos baratos, o consumidor começa a experimentar mais limitações de hardware.
Um processador fraco fica evidente.
Pouca RAM fica evidente.
Armazenamento lento fica evidente.
Uma câmera ruim fica evidente.
E, principalmente, um aparelho que começa a envelhecer depois de alguns anos fica evidente.
Imagine duas pessoas.
A primeira compra um celular de R$ 7.000 e usa durante quatro anos. Quando ele começa a apresentar limitações, ela provavelmente pensa:
“Bom, já era esperado.”
A segunda compra um celular de R$ 900 e espera que ele seja seu companheiro de guerra durante cinco anos.
Quando começa a travar:
“ESSA PORCARIA DE MOTOROLA.”
E pronto.
Nasce mais um tijolo na construção do meme.
O problema também está no “parece bom”
Existe outra coisa que a Motorola e outras fabricantes aprenderam muito bem: ficha técnica vende celular.
Um aparelho pode ter câmera de 50 MP, tela de 90 Hz, bateria de 5.000 mAh e 4 GB de RAM.
Parece ótimo.
Mas números isolados não contam a história inteira.
Uma câmera de 50 MP não garante boas fotos.
Uma tela de 90 Hz não garante fluidez.
5.000 mAh não significa automaticamente autonomia absurda.
E 4 GB de RAM em um aparelho com armazenamento lento e processador limitado não fazem milagre.
O Moto G22 é um ótimo exemplo de como uma ficha técnica pode parecer mais interessante do que a experiência prática.
E talvez seja justamente aí que parte da fama da Motorola tenha sido construída: alguns aparelhos entregavam uma aparência de custo-benefício melhor do que o desempenho real conseguia sustentar.
Só que a Motorola de 2026 não é exatamente a Motorola do G22
Agora vem a parte que impede este artigo de virar simplesmente um “Motorola é uma porcaria”.
Porque seria injusto.
A Motorola mudou bastante.
A empresa continua trabalhando pesado no segmento intermediário com a família Moto G e Edge, mas também decidiu entrar de maneira muito mais agressiva no mercado premium.
E aqui aparece uma cena quase engraçada.
A empresa que virou meme de “celular que trava” lançou no Brasil um aparelho de R$ 8.999.
Sim.
O Motorola Signature chegou ao país em março de 2026 com Snapdragon 8 Gen 5, 12 GB de RAM, 512 GB de armazenamento, tela AMOLED de 6,8 polegadas a 165 Hz, bateria de 5.200 mAh e um conjunto de câmeras de 50 MP. A Motorola também promete até sete anos de atualizações de sistema e segurança para o modelo. (Motorola Brasil)
No momento da nossa pesquisa, a própria loja da Motorola listava a família Signature em uma faixa de aproximadamente R$ 7.299 a R$ 8.999, dependendo da oferta. (Motorola Brasil)
É um salto gigantesco em relação ao Moto G22.
E, sinceramente, isso é algo que merece ser reconhecido.
A Motorola percebeu que não poderia passar para sempre a imagem de fabricante que só sabe fazer celular barato.
E tem uma mudança que talvez seja ainda mais importante
Durante anos, uma das críticas recorrentes à Motorola foi justamente o suporte de software.
E aqui a empresa está tentando mudar de postura.
O Signature promete sete anos de atualizações de sistema e segurança. Isso coloca a Motorola em uma conversa completamente diferente daquela em que ela costumava estar. (Motorola Brasil)
Mas é importante não transformar promessa em resultado.
Sete anos no papel são sete anos no papel.
Agora precisamos ver como essa política funciona na prática ao longo do tempo, especialmente porque a própria documentação da Motorola ressalta que cronogramas podem variar conforme modelo, região, operadora e outros fatores. (Suporte Motorola BR)
E essa é justamente a diferença entre fazer propaganda e analisar tecnologia.
A gente pode reconhecer que a empresa melhorou sem fingir que ela já resolveu absolutamente tudo.
Então… a Motorola merece a fama?
Minha resposta é: parcialmente.
A fama não apareceu do nada.
Existiram aparelhos ruins.
Existiram escolhas de hardware questionáveis.
Existiram modelos que entregavam uma experiência abaixo do que sua ficha técnica fazia parecer.
O Moto G22 é um exemplo particularmente fácil de defender porque existem testes independentes e relatos de usuários documentando problemas de desempenho. (Tech Advisor)
Mas transformar isso em “Motorola faz celular ruim” é simplesmente errado.
A mesma marca criou o Moto G, uma das linhas mais importantes do mercado de smartphones baratos, justamente por mostrar que um celular acessível poderia oferecer uma experiência decente. (TechRadar)
E hoje ela está tentando subir até o mercado premium.
Isso não apaga os erros antigos.
Mas também não faz sentido fingir que a empresa parou no tempo.
Talvez o verdadeiro problema seja a memória do consumidor
Tecnologia tem uma característica engraçada:
o produto pode mudar muito mais rápido do que a reputação da empresa.
Um celular pode ser lançado, virar meme, ser esquecido e desaparecer das lojas.
O meme fica.
É por isso que talvez alguém compre um Motorola atual, veja um aparelho rápido, com boa tela, câmeras competentes e suporte de software muito maior e ainda pense:
“É Motorola. Vai começar a travar.”
Enquanto isso, a empresa está tentando convencer o mercado de que não é mais aquela Motorola.
E talvez essa seja a parte mais difícil da história.
Não é apenas fazer um celular melhor.
É convencer milhões de pessoas de que aquele celular melhor realmente existe.
No fim das contas…
A Motorola não virou sinônimo de celular que trava porque passou toda a sua história fabricando porcarias.
Na verdade, é quase o contrário.
Ela construiu uma reputação enorme justamente vendendo celulares acessíveis que funcionavam bem. O problema é que, ao longo dos anos, alguns aparelhos ruins e escolhas questionáveis começaram a alimentar uma percepção que acabou se transformando em meme.
O Moto G22 certamente não ajudou.
Mas também não dá para usar um aparelho de 2022 para julgar uma empresa inteira em 2026.
Hoje existe uma Motorola tentando ocupar espaços muito diferentes ao mesmo tempo: desde aparelhos baratos até um smartphone premium de quase R$ 9 mil.
Se essa mudança vai realmente apagar a velha fama da marca, só o tempo vai dizer.
Mas uma coisa já dá para afirmar:
se você ainda olha para qualquer Motorola e pensa automaticamente “vai travar”, talvez esteja julgando a empresa pelo celular que ficou na sua memória — e não pelo celular que está na prateleira hoje.
E talvez seja justamente isso que torna essa história tão curiosa.
A Motorola não precisa provar que nunca fez celular ruim.
Ela precisa provar que aprendeu com eles.
E você, qual foi sua experiência com a Motorola? Já teve algum Moto que foi uma verdadeira máquina ou algum que fez você jurar nunca mais comprar a marca? Conta aí nos comentários — principalmente se você teve um G22. Quero saber se a fama dele é realmente tão grande quanto parece.